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O capital de risco renasce e há 86 bilhões de dólares para investimento em empresas emergentes nos Estados Unidos
EXAME Depois de três anos da mais profunda depressão, as flores finalmente voltam a brotar em Sand Hill Road, a avenida de Palo Alto, na Califórnia, que é considerada o coração do Vale do Silício e o centro do capital de risco no mundo. Empresas emergentes de tecnologia da informação ou biotecnologia voltaram a ser assediadas pelos investidores. "A seca acabou" ou "A primavera chegou" são frases comuns por lá. Um simples site de relacionamento como o Friendster.com, fundado há pouco mais de um ano, chegou a ser avaliado em 53 milhões de dólares e recebeu investimentos de 13 milhões em outubro passado sem nunca ter dado um centavo de lucro. O LinkedIn, outro site do tipo, obteve 5 milhões em novembro. A Hypnion, empresa que desenvolve novos remédios para dormir, levou 47 milhões. Vem aí outra bolha especulativa? Pode parecer que sim. De acordo com dados da consultoria McKinsey, há uma montanha de dinheiro, estimada em 86 bilhões de dólares, parada em fundos de risco à espera de boas idéias para investir. Diante dos juros irrisórios pagos pelo governo dos Estados Unidos, de 1,25% ao ano, o apetite do investidor pelo risco aumentou muito. O índice Nasdaq, que mede os papéis negociados na bolsa americana das empresas emergentes, já subiu mais de 80% desde outubro de 2002, quando atingiu o fundo do poço. Se compararmos o primeiro trimestre deste ano com o do ano passado, o valor das ofertas de novas ações na Nasdaq foi multiplicado por 20. Mas há diferenças significativas em relação à euforia do passado. Primeiro, os números ainda são pequenos. O total investido por capitalistas de risco americanos em 2003, uns 20 bilhões de dólares, é menos de um quinto do investido em 2000, quando bastava apor o sufixo ponto-com ao nome da empresa para levar um cheque de dezenas de milhões. Segundo, a exigência do mercado aumentou, como se as leis da gravitação do capital tivessem voltado a vigorar depois de uns tempos em que tudo boiava sem referência no éter financeiro. Dificilmente jovens recém-saídos da faculdade terão a mesma sorte nos novos tempos. "Agora, antes de tentar abrir o capital na bolsa, uma empresa precisa dar lucro durante três anos consecutivos e ser avaliada em pelo menos 100 milhões de dólares", afirma Carlos Kokron, diretor para a América Latina do fundo Intel Capital.
Sim, os investidores vão continuar a arriscar. Sim, eles vão continuar a receber o retorno do investimento ao abrir o capital das empresas na bolsa, por meio das ofertas públicas iniciais, ou IPOs. Sim, quanto maior o risco e quanto mais cedo eles conseguirem descobrir uma tecnologia em que vale a pena apostar, maior será o lucro. Sim, o capitalismo vai continuar funcionando. Mas será difícil ver daqui para a frente um ano em que o capital de risco dê um retorno médio de 146%, como em 1999, ou um retorno negativo de 17,8%, como nos 12 meses encerrados em setembro de 2003. Mais provável é que seja mantida a média anual histórica de 15,7% -- em dólar. Investir em tecnologia, inovação e nas empresas emergentes promete, portanto, continuar sendo um belo negócio. Que o digam os fundos Sequoia Capital e Kleiner Perkins Caulfield & Byers, dois dos mais renomados de Sand Hill Road. Eles investiram 25 milhões de dólares para criar o mais popular mecanismo de busca da internet, o Google. De acordo com as estimativas, hoje o Google vale 15 bilhões de dólares e seu IPO é o mais esperado na temporada 2004. Este ano também pode reservar surpresas aqui no Brasil. O capital de risco ainda é bastante incipiente no país. Mesmo incluindo os investimentos dos fundos de participação em empresas (equity), o setor movimenta anualmente cerca de 500 milhões de reais. Também é verdade que hoje não há o menor interesse do capital estrangeiro pela América Latina. "Eles estão olhando muito para o próprio umbigo", afirma Patrice Etlin, diretor do fundo de participações Advent International. "É ingênuo imaginar que o cenário confuso e as discussões arrastadas sobre o marco regulatório não tenham influência nas decisões." A progressiva queda dos juros, porém, torna o investimento no setor produtivo naturalmente mais atraente. O Índice Bovespa subiu cerca de 135% em dólar desde o início de 2003 até meados de abril, e o movimento diário da bolsa aumentou quase 150% no mesmo período. Graças à chegada de mais dinheiro ao mundo das ações, são esperados para este ano os primeiros IPOs no novo mercado da Bovespa depois de um longo jejum. "Estamos analisando mais de 20 empresas desde janeiro", afirma Marcelo Thiollier, da consultoria Rosenberg & Associados, que ajuda a preparar a abertura de capital ou a entrada de investidores nas companhias. Já estão na fila da Bovespa a empresa de cosméticos Natura e a de logística ALL, que tem participação do fundo GP. A Gol, que recebeu investimentos da AIG Capital, é outra candidata. "Empresas de tecnologia, como a Microsiga, também estão interessadas, mas estão esperando passar a primeira onda", diz Maria Helena Santana, superintendente de relações com empresas da Bovespa. Não há, é claro, espaço na bolsa para pequenos negócios. O mercado não se interessa por ofertas de ações inferiores a 50 milhões de dólares. Isso veta o acesso a empresas que faturem menos de 500 milhões de reais. Além disso, todo o processo de abertura de capital leva no mínimo seis meses e custa cerca de 500 000 reais. Mas a simples existência de uma saída viável para os investidores pela bolsa de valores tende a gerar dinheiro para toda a cadeia alimentar do capital de risco. Pois é o lucro que os fundos embolsam ao vender um pedaço da empresa na bolsa que serve para atrair investidores para novos fundos. E também para comprar pedaços de negócios menores e, dessa forma, dar lucro aos fundos de risco que investiram nesses negócios. Como a maturação dos investimentos de risco é bastante longa -- um ciclo completo, da criação do fundo até o momento em que os sócios saem com o dinheiro na mão, leva uns dez anos --, o mercado julga lentamente a competência dos gestores. Mas a seleção natural é cruel. E a palavra risco não deve ser esquecida. Basta lembrar o caso do investidor japonês Masayoshi Son, o pioneiro da internet que investiu em empresas como o Yahoo! e era saudado como o dono da Nasdaq no ano 2000. A fortuna dele era então estimada em 76 bilhões de dólares. Em 2003, ele tinha 1,1 bilhão. ENVIE POR E-MAIL | IMPRIMA | ASSINE EXAME |
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